Liberais Vermelhos

Somos liberais. E somos vermelhos. Ainda vai discutir?

segunda-feira, setembro 04, 2006

Racistas, quem?

Esse é um post que talvez apareça dividido em duas partes. Eu disse talvez. Isso porque não li por completo o livro do Ali Kamel (Não Somos Racistas, Nova Fronteira, 2006, 22 reais), apenas li o que visitas rápidas às livrarias e textos online gratuitos me permitiram. Não me sinto motivado a comprar o livro. Se o fizer, serei mais um nas estatísticas que usarão para "provar" o sucesso do dito-cujo (algo como "200 mil edições vendidas, blábláblá"), e não gostaria de contribuir para isso. Principalmente se eu detestar o conteúdo. A forma eu já detesto.
Detesto porque parte de uma retórica fantasiosa. Para mostrar os problemas da política de cotas, Kamel diz que o racismo não é fator estruturante da sociedade brasileira, tal como fora na África do Sul e nos EUA. Só que pra isso utiliza-se de um título ambíguo: Não somos racistas. Ora, não seríamos racistas apenas pela falta de uma legislação condizente com a prática? Afinal, o que diabos é essa coisa que chamam de racismo?
Espancar, torturar, perseguir e matar negros, ou brancos, ou pardos, ou indígenas, ou orientais, enfim, outra "raça" (com 1 milhão de aspas, por favor) é prova de racismo? Sim, é, se a prática for orientada pela cor da pele da vítima. Contudo, isso não engloba todas as atitudes possíveis de um racista.
O racismo é uma prática extremamente subjetiva. Na falta de uma legislação estruturante, como quer Kamel, o racismo se apresenta de formas bem pouco perceptíveis. É o olhar de solaio, é o espanto ao ver o negro em altos cargos, é o uso do termo "crioulo", "pretinho", "negrinho" para destacar a pessoa de que se quer falar. O racismo é sutil: é fechar o vidro do carro quando um negro se aproxima, é tomar um susto quando um negro passa correndo, é aceitar (quando se aceita) não sem resistência um casal formado por negros e brancos.
Um argumento do Kamel é que a política de cotas dividiria a nação em um país bicolor. Eu me pergunto se tal divisão já não é existente. Só pretos sabem sambar, só pretos jogam bola com perfeição, pretos são mais fortes, pretos têm pau maior, pretos gostam de pagode, pretos não são bons nadadores, enfim, uma infinidade de associações entre cor de pele e atividade são ouvidas por este que vos fala quase diariamente, vindo de pessoas de uma diversidade cultural e econõmica impressionante (inclusive dos próprios negros). Por outro lado, os brancos são melhores para a "cultura européia": música clássica, tênis, trabalhos intelectuais etc. Uma cultura européia secularmente (e errôneamente) associada à civilização.
Essa divisão baseada na cor da pele não é prerrogativa do Brasil, lógico. Mas fico espantado em como por aqui parece mais forte a idéia de democracia racial, ainda nos dias de hoje. Como se a miscigenação fosse um argumento sustentável para uma possível relação pacífica entre negros e brancos.
Sou contra cotas "raciais". Acredito que pretos e pardos são a maioria dentre a população pobre do país, portanto acredito que cotas com limite de renda são suficientes para ingressa-los na universidade em peso, sem excluir os brancos que também estão abaixo da linha de pobreza. Uma cota apenas baseada na cor de pele pode levar a dois problemas fundamentais: 1) Beneficiará muito mais os negros de alta renda e não agirá contra a pobreza; 2) Poderá reforçar argumentos dos racistas de plantão, atestando que "os negros só entraram por causa das cotas" e outras bobagens. Além disso, baseado na auto-declaração (ao meu ver o mais justo modo de se averiguar quem é preto, pardo ou branco, num país tão marcado pela mistura), cotas exclusivamente raciais beneficiarão também brancos de alta renda, que sempre poderão dar um jeitinho de encontrar um pé ancestral na África.
Talvez cotas que unam o critécio "racial" ao critério econômico sejam uma boa medida para otimizar a presença dos negros na universidade nos próximos anos. Porém, como as decisões provisórias acabam se perpetuando nesse país, acho arriscada uma prática que surja "para durar pouco". A inclusão social é fundamental, nem esquecer a melhoria dos ensinos de base. As cotas não são de jeito nenhum uma solução, mas são um bom primeiro passo. O risco é parar pra descansar logo depois.

2 Comments:

Blogger Monsair Martuchelli said...

só lembrando, pelo menos nas universidades que conheço, existe renda mínima para todas as cotas, então não tem como o branco rico dar o seu jeitinho.

dezembro 20, 2006 4:29 AM  
Anonymous Anônimo said...

João

Nesta questão de sermos ou não uma sociedade bicolor, discordo de você. Num pais miscigenado, você acha impossivel que, a obrigação de se definir como branco ou negro, possa causar mais racismo? Há descendentes de indios no Amazonas sendo pressionados por políticos a se declararem negros. A coisa esta esquisita. Se as cotas para pobres são mais eficientes, qual a razão do governo querer cotas para negros? Será burrice ou é de caso pensado?

Renato U Souza

março 15, 2007 8:26 PM  

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